12.7.09

a fisiologia do silêncio


eu não domino o silêncio e nem o silenciar. leio muito a seu respeito, tenho algumas experiências, mas longe de mim achar que tenho propriedade sobre o assunto. mesmo assim vou me arriscar aqui. afinal é um espaço de troca e não uma via de mão única. o que sei é que não é o silêncio apenas a ausência de som, de ruído e de palavras...
demorei muito anos me trabalhando pra conseguir escutar mais e falar menos. o meu forte é a comunicação. preciso falar pra ir organizando meus pensamentos e somando outras opiniões a eles. falar me ajuda a concluir o processo complexo do entendimento dos sentimentos, dos pensamentos e das sensações. viciei nisso! em falar. sempre tinha brigas oméricas com meu pai por não conseguir escutar uma frase inteira. acho que porque meu pai morreu e então paramos de brigar eu achei que tivesse conseguido escutar mais!!!
tolinha! a vida é assim: quando achamos que chegamos lá, o lá caminha alguns passos adiante e então, estamos ainda na caminhada. achei que tivesse aprendido a escutar.
na minha tentativa, ainda não bem sucedida, pelo visto, eu, num esforço descomunal me abro os ouvidos - e o coração. a contra-partida não se manifesta. o som não chega, as palavras não são ditas e a cena congela. e não é nem pra rir e nem para chorar. é apenas mais um aprendizado!
o silêncio é afiado! intocável, desconfortável, indecifrável! de qualquer forma, seja qual for a minha relação com o silêncio, boa ou má, envolvente ou indiferente, volta e meia ele vem, dança na minha frente com uma bunda gorda e feia e parece zombar de mim.
o que veio me dizer desta vez?
algo que até hoje ainda não consegui escutar...
ele [o silêncio] fala? se cala? grita?
me aprova? me repele? tem medo de mim??
eu, que não sei lhe dar ouvidos, me confundo, me desoriento. cega, vou tatenado alguma direção, mas não saio mais do prumo. parte da lição eu já aprendi.
o silêncio é!
mas seja lá o que for não tem mais a força do monstro que eu criei na tempestade de pensamentos que já não me tempesteiam mais.
é o nada. é o tudo. é o grito contido. o sentimento não decifrado. a questão não levantada. a resposta não conhecida, mas não é mais forte do que eu.
[suspiro] ai, ai, ai, então tá! ficamos assim: o dito pelo não dito. o essencial também não pode ser visto pelos olhos...
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bela, essa é pra você, só pra apimentar suas confusões particulares: "se você não consegue entender o meu silêncio de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos." [oscar wilde]
esse silêncio deve ser o vizinho do que eu falo aqui. o daqui não se parece com esse...