20.4.10

descascando o ego

depois que consegui me esvaziar, nesse primeiro mês de busca, a minha cabeça foi aos poucos voltando para o lugar. posso lembrar de uma sensação completamente nova pra mim que começou a atravessar comigo os dias... aliás, os dias, aos poucos se tornavam lindos dias! o céu brilhava um azul intenso sulista e a mata sempre tinha um ar geladinho. aos poucos uma nova rotina foi preenchendo o éter na minha jornada e comecei a interagir mais com o lugar. algumas pessoas começavam a atravessar por onde eu ia, mas não perdi mais de vista o propósito da minha imersão: eu queria experimentar novas experiências e dissolver velhos padrões!
para o meu lado racional não ter um pirepaque, quando larguei tudo no rio, tive que invetar algumas mentiras pra mim mesma. me fiz acreditar que eu estava saindo a procura de novas oportunidades de trabalho, mais alinhadas aos valores novos que eu aprendia a cultivar. queria colocar a ayurveda e a yoga em prática, fazer novos cursos. estudar permacultura e bio-construção, achar um lugar para morar, dar uma terra para o meu filho e parar de sobreviver. coisas mais materiais... mas depois de um mês de imersão tudo tinha se dissolvido e estava claro como o dia que nada disso era o propósito verdadeiro.
pensar, pensar, pensar... fiz isso por um mês inteiro, sozinha. quanto mais eu refletia sobre o que tinha acontecido, sobre o porque de eu ter ido parar ali, tão distante de tudo, o que eu realmente estava buscando, mais eu tinha a certeza de que era preciso se perder completamente para se encontrar. e me dava esse espaço.
não perdi mais de vista a intenção de não julgar e toda a manhã incluía nas minhas orações esse propósito interior. uma forma de não cometermos injustiça é de não emitirmos julgamentos a respeito de fatos, idéias ou pessoas. e quanto mais eu pensava sobre isso, mais eu tinha para pensar e refletir a respeito...
na viagem para dentro de mim pude sentir que sou um universo infinito e único e que cada aspecto da minha vida podia ser desdobrado mil vezes e em mil possibilidades. isso me fez perceber que qualquer um é assim, sendo portanto uma pretenção [ego] sem tamanho imaginar que algum dia você vai conhecer a pessoa que dorme há anos ao seu lado, o que dirá quem dorme apenas há alguns meses! foi bastante reconfortante sentir as coisas desta forma naquele momento, mas se eu desdobrava também esta informação ficava com a impressão de vivermos com pessoas totalmente desconhecidas e estranhas, partindo do princípio, que na sociedade atual as relações são frágeis, superficiais e sem raízes...

desta forma, assustei-me ao me dar conta que relacionar-se a dois, por exemplo, pode se tornar uma peça com quatro personagens ilusórios: quem você pensa que você é, quem você pensa que o outro é, quem o outro pensa que é e quem o outro pensa que você é... somos todos um universo inexplorado, por mais que mergulhemos em nosso interior!
ter ficado tão perdida e tão fraca tinha me proporcionado uma forma de rendição. tinha me feito deixar cair as máscaras [e os personagens] que eu vestia para encobrir as minhas fraquezas e as questões que eu não sabia como lidar.
agora me parecia que eu estava pronta pra voltar ao mundo. esvaziada. desconstruída. e fortalecida. alinhada com o meu propósito interior.